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2/24/2011

ENCONTRANDO-SE COM AS PONTAS E FAZENDO A TRAVESSIA

 Aconteceu no dia 13 de fevereiro de 2011 o 1º ENCONTRO DE TEATRO DAS PONTAS, reunindo grupos que andam às margens do Centro Teatral. O propósito do encontro foi potencializar nossas agendas, articular idéias e fortalecer grupos que possuem identidade definidas, lutas infindas e sobrevivência batalhada. Grupos que, em suas comunidades, criam sustentabilidade, políticas e pensamento estético. Nós, os Contadores de Mentira, agradecemos a generosidade de todos que estiveram presentes pois percebemos que nossas lutas transitam no mesmo caminho e ideais. Não por acaso estavam neste encontro grupos que, por natureza, dialogam com comunidades, organizam sustentabilidade e buscam o teatro para além de um espetáculo.

                                          1º Encontro de Teatro das Pontas - 13/fev/2011 - Galpão das Artes Suzano

Abaixo seguem os principais levantamentos, endereços e agenda que combinamos em nosso encontro.

ENCONTRO DE TEATRO DAS PONTAS

CONTADORES DE MENTIRA (Suzano), BRAVA CIA (Zona Sul-SP), BURACO DO ORÁCULO (São Miguel Paulista), CIA DO FEIJÃO (Centro - SP), TEATRO DA NEURA (Suzano), CIA DO ESCÂNDALO, FILHOS DA DITA, NÚCLEO TEATRAL OPERETA (Poá) POMBAS URBANAS (Cidade Tiradentes), TRUPE PARABOLANDOS (Suzano), GRUPO CLARIÔ DE TEATRO (Taboão da Serra)


grupos que participaram como ouvintes: Laboratório de Manipulação (Suzano), Grupo Roda Mundo (Poá), Grupo Garra (Suzano), Grupo SISO (Póá)



CONTADORES DE MENTIRA

http://www.contadoresdementira.com.br/
http://www.tvcontadoresdementira.com.br/



Ações Apontadas:



- Potencializar as ações e agendas de cada grupo.
- Criar um sistema de visita e troca entre os grupos.
- Mapeamento e Circuito entre os espaços de ocupação dos Grupos
- Socializar Agenda
- Divulgação e multiplicação das idéias por meio das diversas Redes Sociais na internet que os próprios grupos utilizam.

- Trocar experiências artísticas e de produção.



ESPAÇOS CATALOGADOS
(Para apresentações, vicências, discussões...)


GALPÃO DAS ARTES - Suzano
Espaço para apresentações, encontros, trocas artísticas...
End. r: NOve de Julho, 267 Centro
Contatos: Cleiton Pereira 6392-4987 / pereiracleiton@gmail.com


Ponto de Cultura da APAC (Associação Paulista de Artes Cênicas)- Suzano
Espaço para discussões, trocas artísticas e apresentações de rua.
End: r: Izabel CAstanheda Mayer, 109 Parque Residencial Casa Branca - Suzano
Contatos: Tuane 7413-7801

ESPAÇO CULTURAL TROUPE PARABOLANDOS - Suzano
Espaço para discussões, trocas artísticas.
End: Avenida Antônio Marques Figueira, 591 Centro
Contatos: Rafael Marcondes 8320-3863 Keila Godoi 8610-8858 - http://www.parabolandos.com.br/
http://www.parabolandos.blogspot.com.br/

ASSOCIAÇÃO CULTURAL OPERETA - Poá
Espaço para apresentações, encontros, vivências...
End: r: Dr. Emílio Ribas, s/nº Sopreter
Contato: 4638-2700/ 9318-8001 Marco Senna
http://www.acopereta.blogspot.com/


GALPÃO ARTHUR NETTO - MOgi das Cruzes
Espaço para encontros, apresentações, vivências...
End: r: FAusta Duarte de Araújo, 23 Jd Santista
Contato: 3433-9841 Manoel Jr.

INSTITUTO ARTE EM CONSTRUÇÃO (Pombas Urbanas) Cidade Tiradentes
Espaço para apresentações, trocas artísticas, encontros...
End: Av. Dos Metalúrgicos. 2.100 (Em frente ao Sacolão)
Contato: 2285-5699/ 2282-3801 / contato@pombasurbanas.org.br/ pombas.urbanas@terra.com.br


SACOLÃO DAS ARTES (Brava) São Paulo
Espaço para apresentação, encontros, trocas artísticas...
End: Av. Cândido JOsé Xavier, 577 Pq. Santo Antônio
Contato: 5511-6561/ 5819-2564/ 9819-1418 Kátia Alves
bravacompanhia@terra.com.br / katiabrava@gmail.com


ESPAÇO CLARIÔ Taboão da Serra
Espaço para apresentações, discussões, vivências...
End: r: Santa Luzia, 96 - Taboão da Serra - SP
Contato: 9995-5416/ 7135-4187  http://www.espacoclario.blogspot.com/

SEDE DA CIA DO FEIJÃO
Rua Teodoro Baima, 68 - República - SP
telefone.35863579



quer saber mais sobre o conteúdo da discussão? Quer participar do teatro das Pontas? pereiracleiton@gmail.com

2/07/2011

1º ENCONTRO DE TEATRO DAS PONTAS

1º ENCONTRO DE TEATRO DAS PONTAS.

 13 DE FEVEREIRO , domingo às 14h, no Galpão das Artes em Suzano, 


O encontro é uma necessidade, uma estratégia, uma luta, uma caminhada, uma rede, uma travessia... Convidamos a princípio dez grupos que possuem identidades estabelecidas, caminhos percorridos e que resistem em seus territórios... O encontro servirá para unir forças e ampliar o pensamento e articulação em rede. Criar circuitos, redes de pensamento, atitudes e fortalecer as lutas é o grande objetivo deste encontro.
 
CIA DO FEIJÃO, BRAVA CIA, CIA DO ESCÂNDALO, BURACO DO ORÁCULO, CLARIÔ, CONTADORES DE MENTIRA, POMBAS URBANAS, TEATRO DA NEURA, TRUPE PARABOLANDOS, OPERETA

PONTE E TRAVESSIA - O Teatro que se distraiu e o Teatro que mora ao Lado



foto: CONTADORES DE MENTIRA durante apresentação do espetáculo CURRA-TEMPEROS SOBRE MEDÉIA no Centro Cultural Arte e Construção na Cidade Tiradentes, espaço do grupo POMBAS URBANAS


Ponte e travessia


O teatro que se distraiu e o teatro que mora ao lado



Cleiton Pereira*

Falar do movimento de teatro nas periferias é entender que o teatro ali desenvolvido assume o seu papel de incomodar, inquietar e devolver às pessoas a liberdade de imaginação e de crítica. Ouso dizer que o teatro dos grandes centros se perdeu na distração em um círculo vicioso dependente de fomentos, editais, SESCs e da casa vazia ou “lotada” pelos amigos teatrais. Ouso dizer que este teatro do centro despolitizou-se e desarticulou-se nas lutas por um coletivo. É claro que existem os grupos e artistas politizados, preocupados com o ambiente em que atuam e nas consequências de seu teatro e de sua luta. Mas são poucos e localizados. De fato, existem as pontes do centro para as periferias, mas não existe travessia.



Enquanto o teatro de São Paulo está desatento, ou ignora, ou não tem tempo para outros movimentos, o teatro das periferias e de outros municípios do interior precisam se articular por uma questão de sobrevivência e sustentabilidade. Há grupos fortes, de identidades próprias, enraizados em suas cidades e que existem a cerca de 10, 15, 20 anos. Grupos que transitam, circulam, trocam relações entre si e resistem em cidades quase sempre desprovidas de políticas públicas. Se não fosse o novo momento cultural promovido pelo Governo Federal, alguns grupos talvez se perdessem na memória local. Por natureza, o teatro fora do grande centro precisa encontrar alternativas próprias para se comunicar, se articular, se organizar, se formar e preservar sua identidade.



O grupo Contadores de Mentira atua em Suzano, na grande São Paulo desde 1995 e é pioneiro de um movimento, hoje fortalecido e na base histórica teatral do Alto Tietê. Foi o primeiro grupo a adotar Suzano como “residência” e o primeiro grupo a propor novos espaços forçando a comunidade de Suzano a “exercitar o olhar” para um teatro voltado aos rituais, à pesquisa de linguagens e à necessidade de organização.



Os Contadores descobriram cedo que é necessário se organizar em coletivos, lutar por políticas públicas, e que dialogar com a comunidade é tão importante quanto a obra teatral. Um projeto de grupo é mais importante que um espetáculo isolado. É um grupo que atua no teatro, focado nos rituais populares, mas também atuam como “brincantes populares”, como associação, como comunicação de Mídia Livre.



Por ironia ou paradoxo, não foi pelo teatro que vieram recursos e estrutura para o grupo continuar. E, sim, por um projeto de comunicação alternativa, utilizando recursos audiovisuais e a intervenção urbana batizada de TV Contadores de Mentira que o grupo foi reconhecido, ou melhor, “notado”. Projeto que, em 2009 e também em 2010, rendeu o Prêmio Pontos de Mídia Livre, do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura. E aí está uma questão definitiva para o teatro dos Contadores de Mentira: a possibilidade de ir além do que o próprio teatro se propõe e criar alternativas que ampliem sua identidade cultural.



Ainda sobre Suzano, a política pública foi fundamental para que, a partir de 2005, o município deixasse de ser desprovido de crítica e auto-estima. Antes disso, o movimento teve um marco importante em 2002, com o surgimento da APAC (Associação Paulista de Artes Cênicas), organização criada pelos Contadores de Mentira e outros artistas de teatro, cinema, literatura e artes plásticas. Logo em seguida, com espaço próprio, foi possível abrir caminho para longas temporadas e pesquisas mais profundas. Com foco na necessidade da região entrar em contato com novas perspectivas de criação, surgiram projetos de formação consolidados na experiência de olhar, refletir e tomar atitudes.



A retomada da cidade e a reconstrução (ou construção) das primeiras linhas de um movimento artístico tornaram Suzano, antes de tudo, um local de realizadores preocupados com sua obra e consequências dos seus discursos artísticos. Grupos se organizaram em coletivos, explosões criativas e decepções andaram lado a lado. Artistas passaram a localizar sua cidade e a relação estabelecida com ela. Suzano optou pelo seu teatro: Um teatro voltado ao coletivo, a processos dramatúrgicos próprios, a estéticas preocupadas com seu meio e não necessariamente voltado às necessidades mercadológicas. O teatro de Suzano é também o teatro dos Contadores de Mentira, que vai ao contra fluxo do gosto médio e briga pela liberdade de criação.



Este contexto histórico não é diferente de muitos grupos e fazedores de teatro do interior e das zonas periféricas de São Paulo. Exemplos como o grupo Pombas Urbanas, na zona leste de São Paulo, são provas claras da força transformadora do teatro para a rua e da rua para a comunidade. São estes grupos que criam apropriação real do teatro que existe pela necessidade de comunicar. As alternativas de sobrevivência criam também soluções estéticas e pesquisas que surgem espontaneamente. Um teatro diferente do chamado “teatro profissional”? Talvez sim, já que o fluxo de recursos e geração destes grupos é quase sempre locado na necessidade. Chamo de necessidade a formação de artistas e de aprendizes, a produção do espetáculo e sua circulação e a sobrevivência desses grupos. Mas se falta recurso sobra algo que o teatro “profissional” rejeita: a formação de vida desses “teatreiros”. Se não há, salvo muita luta, formação acadêmica, formação técnica e recursos para crescer como artistas. Sobram conhecimento, caráter e trabalho operário para o teatro produzido. Um teatro resistente, com ideias próprias e qualidade. A formação desses artistas é tão consistente quanto qualquer faculdade de arte, com a vantagem de que a vivência e a experiência embebida nesse teatro é quase sempre mais potente que a sala de aula. E, sem dúvida, deve-se estudar muito, na formação acadêmica, na vida, na luta, na comunidade e no caminho para o teatro que escolherem.



E daqui para frente? Quais são os produtores, alunos, público, comunidade, professores, grupos, artistas, lugares em que o teatro resiste e existe? Embora, para toda a vida, são por natureza passageiros e movimentam-se para cima e para baixo de forma natural. Quase sempre há crise no teatro, e esta crise, por ironia é o que produz o teatro de resistência. Não é possível enganar a quem vê. Dizer-se artista é uma responsabilidade infinda com o próximo. E ser profissional da área não se traduz em “teatro vivo”. O teatro vivo será aquele que tiver verdade, seja ele do centro ou das pontas. Os outros se descartam ou se desgastam naturalmente. Assim, há um fenômeno neste momento histórico e é necessário atenção e também respeito pela força do teatro produzido às margens. Mas a continuidade desses projetos dependerá do contexto onde estão localizados e da interlocução com seu público. O senso crítico, o exercício do olhar e a coragem de jogar fora as “cartilhas do teatro” somada à coragem de se jogar ao fundo da obra diferenciam os resultados.



Por fim, nossas ações podem ser mais coletivas, também voltadas ao sacrifício e pela troca. Não há frase feita ou tiro certeiro para o fenômeno teatral, e isso é bom. É importante a sensação do risco e até mesmo a alegria contagiante de quando saímos às ruas em cortejos ou quando nos isolamos para pensar determinada obra. De fato, quando nos envolvermos melhor com nossas cidades, suas políticas, seu passado histórico, seus governantes, estaremos mergulhados no teatro vivo que tanto “discursamos”. O teatro estará lá, na imanência e na troca. Estará em qualquer lugar, em qualquer forma, em qualquer dia e não será de ninguém. Não será tocável, mas será respirável. Não fará sentido algum, mas por alguns será sentido. Só precisamos olhar em volta e vermos o teatro que mora ao lado e convidá-lo para entrar em nossa casa.



Termino este texto com a reza dos Contadores de Mentira, feita antes de entrar em cena, confraternizar e compartilhar com o público:



Nós somos os Contadores de Mentira, uma trupe formada pela pior estirpe das estirpes ruins. Urubus que espreitam nos escutem! Aqui estamos e reparem bem, pois poderíamos não estar e, desta forma, tudo seria diferente!

Ponte e travessia


O teatro que se distraiu e o teatro que mora ao lado



Por Cleiton Pereira


Falar do movimento de teatro nas periferias é entender que o teatro ali desenvolvido assume o seu papel de incomodar, inquietar e devolver às pessoas a liberdade de imaginação e de crítica. Ouso dizer que o teatro dos grandes centros se perdeu na distração em um círculo vicioso dependente de fomentos, editais, SESCs e da casa vazia ou “lotada” pelos amigos teatrais. Ouso dizer que este teatro do centro despolitizou-se e desarticulou-se nas lutas por um coletivo. É claro que existem os grupos e artistas politizados, preocupados com o ambiente em que atuam e nas consequências de seu teatro e de sua luta. Mas são poucos e localizados. De fato, existem as pontes do centro para as periferias, mas não existe travessia.


Enquanto o teatro de São Paulo está desatento, ou ignora, ou não tem tempo para outros movimentos, o teatro das periferias e de outros municípios do interior precisam se articular por uma questão de sobrevivência e sustentabilidade. Há grupos fortes, de identidades próprias, enraizados em suas cidades e que existem a cerca de 10, 15, 20 anos. Grupos que transitam, circulam, trocam relações entre si e resistem em cidades quase sempre desprovidas de políticas públicas. Se não fosse o novo momento cultural promovido pelo Governo Federal, alguns grupos talvez se perdessem na memória local. Por natureza, o teatro fora do grande centro precisa encontrar alternativas próprias para se comunicar, se articular, se organizar, se formar e preservar sua identidade.

O grupo Contadores de Mentira atua em Suzano, na grande São Paulo desde 1995 e é pioneiro de um movimento, hoje fortalecido e na base histórica teatral do Alto Tietê. Foi o primeiro grupo a adotar Suzano como “residência” e o primeiro grupo a propor novos espaços forçando a comunidade de Suzano a “exercitar o olhar” para um teatro voltado aos rituais, à pesquisa de linguagens e à necessidade de organização.

Os Contadores descobriram cedo que é necessário se organizar em coletivos, lutar por políticas públicas, e que dialogar com a comunidade é tão importante quanto a obra teatral. Um projeto de grupo é mais importante que um espetáculo isolado. É um grupo que atua no teatro, focado nos rituais populares, mas também atuam como “brincantes populares”, como associação, como comunicação de Mídia Livre.


Por ironia ou paradoxo, não foi pelo teatro que vieram recursos e estrutura para o grupo continuar. E, sim, por um projeto de comunicação alternativa, utilizando recursos audiovisuais e a intervenção urbana batizada de TV Contadores de Mentira que o grupo foi reconhecido, ou melhor, “notado”. Projeto que, em 2009 e também em 2010, rendeu o Prêmio Pontos de Mídia Livre, do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura. E aí está uma questão definitiva para o teatro dos Contadores de Mentira: a possibilidade de ir além do que o próprio teatro se propõe e criar alternativas que ampliem sua identidade cultural.


Ainda sobre Suzano, a política pública foi fundamental para que, a partir de 2005, o município deixasse de ser desprovido de crítica e auto-estima. Antes disso, o movimento teve um marco importante em 2002, com o surgimento da APAC (Associação Paulista de Artes Cênicas), organização criada pelos Contadores de Mentira e outros artistas de teatro, cinema, literatura e artes plásticas. Logo em seguida, com espaço próprio, foi possível abrir caminho para longas temporadas e pesquisas mais profundas. Com foco na necessidade da região entrar em contato com novas perspectivas de criação, surgiram projetos de formação consolidados na experiência de olhar, refletir e tomar atitudes.

A retomada da cidade e a reconstrução (ou construção) das primeiras linhas de um movimento artístico tornaram Suzano, antes de tudo, um local de realizadores preocupados com sua obra e consequências dos seus discursos artísticos. Grupos se organizaram em coletivos, explosões criativas e decepções andaram lado a lado. Artistas passaram a localizar sua cidade e a relação estabelecida com ela. Suzano optou pelo seu teatro: Um teatro voltado ao coletivo, a processos dramatúrgicos próprios, a estéticas preocupadas com seu meio e não necessariamente voltado às necessidades mercadológicas. O teatro de Suzano é também o teatro dos Contadores de Mentira, que vai ao contra fluxo do gosto médio e briga pela liberdade de criação.

Este contexto histórico não é diferente de muitos grupos e fazedores de teatro do interior e das zonas periféricas de São Paulo. Exemplos como o grupo Pombas Urbanas, na zona leste de São Paulo, são provas claras da força transformadora do teatro para a rua e da rua para a comunidade. São estes grupos que criam apropriação real do teatro que existe pela necessidade de comunicar. As alternativas de sobrevivência criam também soluções estéticas e pesquisas que surgem espontaneamente. Um teatro diferente do chamado “teatro profissional”? Talvez sim, já que o fluxo de recursos e geração destes grupos é quase sempre locado na necessidade. Chamo de necessidade a formação de artistas e de aprendizes, a produção do espetáculo e sua circulação e a sobrevivência desses grupos. Mas se falta recurso sobra algo que o teatro “profissional” rejeita: a formação de vida desses “teatreiros”. Se não há, salvo muita luta, formação acadêmica, formação técnica e recursos para crescer como artistas. Sobram conhecimento, caráter e trabalho operário para o teatro produzido. Um teatro resistente, com ideias próprias e qualidade. A formação desses artistas é tão consistente quanto qualquer faculdade de arte, com a vantagem de que a vivência e a experiência embebida nesse teatro é quase sempre mais potente que a sala de aula. E, sem dúvida, deve-se estudar muito, na formação acadêmica, na vida, na luta, na comunidade e no caminho para o teatro que escolherem.

E daqui para frente? Quais são os produtores, alunos, público, comunidade, professores, grupos, artistas, lugares em que o teatro resiste e existe? Embora, para toda a vida, são por natureza passageiros e movimentam-se para cima e para baixo de forma natural. Quase sempre há crise no teatro, e esta crise, por ironia é o que produz o teatro de resistência. Não é possível enganar a quem vê. Dizer-se artista é uma responsabilidade infinda com o próximo. E ser profissional da área não se traduz em “teatro vivo”. O teatro vivo será aquele que tiver verdade, seja ele do centro ou das pontas. Os outros se descartam ou se desgastam naturalmente. Assim, há um fenômeno neste momento histórico e é necessário atenção e também respeito pela força do teatro produzido às margens. Mas a continuidade desses projetos dependerá do contexto onde estão localizados e da interlocução com seu público. O senso crítico, o exercício do olhar e a coragem de jogar fora as “cartilhas do teatro” somada à coragem de se jogar ao fundo da obra diferenciam os resultados.


Por fim, nossas ações podem ser mais coletivas, também voltadas ao sacrifício e pela troca. Não há frase feita ou tiro certeiro para o fenômeno teatral, e isso é bom. É importante a sensação do risco e até mesmo a alegria contagiante de quando saímos às ruas em cortejos ou quando nos isolamos para pensar determinada obra. De fato, quando nos envolvermos melhor com nossas cidades, suas políticas, seu passado histórico, seus governantes, estaremos mergulhados no teatro vivo que tanto “discursamos”. O teatro estará lá, na imanência e na troca. Estará em qualquer lugar, em qualquer forma, em qualquer dia e não será de ninguém. Não será tocável, mas será respirável. Não fará sentido algum, mas por alguns será sentido. Só precisamos olhar em volta e vermos o teatro que mora ao lado e convidá-lo para entrar em nossa casa.

Termino este texto com a reza dos Contadores de Mentira, feita antes de entrar em cena, confraternizar e compartilhar com o público:


Nós somos os Contadores de Mentira, uma trupe formada pela pior estirpe das estirpes ruins. Urubus que espreitam nos escutem! Aqui estamos e reparem bem, pois poderíamos não estar e, desta forma, tudo seria diferente!

Foi tanto.... que nem percebemos o tamanho da nossa janela....



Povo Contadores....

já passou.... o ano de 2010 foi de comemoração, firmar idéias.... correr... correr.... correr....
corremos feito coelhos de Alice.... corremos e a Rainha não cortou nossas cabeças.... De fato não esperamos a Rainha.... Fomos nós, os Contadores de Mentira, que cortamos nossas próprias cabeças....
e ficamos nus...

e foi pela nossa própria nudez que olhamos para aquilo que fizemos.... olhamos... refletimos....

foi em 2010 que fizemos uma temporada na casa da Cia do Feijão... lotamos a casa... celebramos com muitos amigos.... mostramos a cara.... nossas sombras... nossa comida.... nosso saravá... nosso corpo.....

foi em 2010 que andamos na casa do POMBAS URBANAS.... grande família.... doce acolhida.... luta.... e o sentido mais pleno da palavra irmão....


 
foi em 2010 que ganhamos novamente o prêmio PONTOS DE MÍDIA LIVRE, com a nossa TV CONTADORES DE MENTIRA... FOMOS PREMIADOS EM 2009 E DE NOVO EM 2010.... fomos um dos poucos premiados novamente.... é pela Tv que lidamos com nossa comunidade.... é pela TV que algum recurso cai em nossa caixa....


Foi em 2010 que viramos Associação..... agora somos ASSOCIAÇÃO DE CULTURA E CIDADANIA CONTADORES DE MENTIRA......

Foi em 2010 que fizemos uma comemoração com apresentações do CURRA-TEMPEROS SOBRE MEDÉIA, com participação de muitos amigos..... JABUTICAQUI (grupo de cultura popular) e o SUBURBAQUE (grande maracatu!!!)

Foi em 2010 que fizemos nosso Show da Banda Contadores de Mentira com grandes amigos músicos..... MEYSON, JUÁ DE CASA FORTE, ALINE CHIARADIA, DANI ANJOS, BANDA BICO DO CORVO, PARABOLANDOS, TICO SAM, DEVA, PASSARINHO, EDU ALVES, TROVÃO, MARCO e nós mesmos,,, que nos divertimos de forma indecifrável...
.


Foi em 2010 que realizamos uma exposição dos nosssos 15 anos... Uma casa onde vc entrava e caia em nossa caixa de imagens.... nossos curingas.... nosso corpo servido à mesa... nossos urubus... nossos refletores de latinha.... nossos tecidos pendurados... nossos barvantes... nosssas cores... nossas fotos.... nossa lona... nosso som... nossas máscaras....
e é claro.... a grande ajuda da luz do TOMATE SARAIVA e do TACIANO HOLANDA e a parceiragem da RAQUEL NÓZ....

Foi em 2010 que a gente foi pra rua fazer campanha pra Dilma... porque o que sabemos o quanto o governo Lula foi importante para a História.... e que o Serra, o Kassab, o Alkmin são cavaleiros obscuros com os quais devemos lutar....

Foi em 2010
que olhamos nossa parte de dentro.... que olhamos nossos pés descalços.... e nossas costas que carregam.... arrepiamos.... e voamos..... e eternizamos nossas crenças... e nossas dúvidas....
foi em 2010 que a casa abriu uma janela enorme... que a gente nem sabia o tamanho do que a gente construiu....

aqui estamos e reparem bem... pois poderíamos não estar e dessa forma tudo seria diferente.....